domingo, 31 de dezembro de 2006

Emoções e Lógica

Meu personagem favorito da série Jornada nas Estrela sempre foi o Sr. Spock. Sua capacidade em bloquear as emoções e simplesmente olhar tudo pelo lado da lógica me facinavam. Sentir emoções nos levam ao sofrimento. Também são responsáveis pelos momentos de alegria, mas será que este preço vale a pena?

Em vários momentos de minha vida consegui isolar minhas emoções através de um método simples: colocar-me acima do fato. Olhar como um observador e não como participante. Como se nada daquilo fosse comigo. Eu não era um personagem, apenas um observador privilegiado.

Este não envolvimento tinha a vantagem de bloquear o sentimento de dor, de sofrimento que ocorre quando perdemos alguém próximo. Consegui isolar-me no falecimento de três tios próximos em um período menor que um ano.

Não tive sucesso quando o acontecimento foi o falecimento de meu pai. Neste caso, por mais que tentasse me afastar, ouvir e ver o que estava ocorrendo como observador, desde sua internação até a cirurgia da qual não conseguiria sair, o afastamento era apenas momentâneo. Logo eu retornava ao vivenciamento dos fatos.

Nunca fui muito bom em guardar diálogos. Não tenho a capacidade de um Trumam Capote que se dizia capaz de recordar de 94% do que era dito. No entanto, guardo com alto nível de detalhes o telefonema de meu cunhado, médico clínico, cardiologista famoso, informando-me que meu pai havia sofrido uma parada quando estava para ser transferido da sala de cirurgia para a UTI e que o cirurgião resolvera operá-lo novamente.

As conversas que se seguiram também me marcaram até a última, quando ele me disse que não havia mais esperanças. Não consegui chorar. Homens não choram. A lógica deve sobrepor-se às emoções que nos trazem sofrimento e dor. Olhei do lado e vi minha esposa chorando. À minha frente meu cunhado. E eu ali, personagem do drama e não observador como gostaria de ser mais que tudo naquele momento. Meu pai estava morto.