domingo, 31 de dezembro de 2006

A Consciência da Morte

Mortes violentas são traumáticas. Nos retiram alguém de modo abrupto, sem que tenhamos tempo para refletir. O sofrimento é muito grande e a dor imensurável. Quando ela muda a ordem natural então é ainda mais terrível. Foi assim com o acidente que levou minha irmã mais nova, há quase vinte anos.

Mortes lentas por doença são terríveis para o enfermo, mas dão tempo à família de se acostumar com a idéia, por mais sádica que seja a situação.

Todos esperamos que os mais velhos morram antes dos mais jovens. Primeiro os pais, depois os filhos. Desde pequenos somos preparados para a característica mortal do ser humano. Somos apresentados à morte como algo presente. Tomamos consciência de que nossa estada neste mundo é finita. E mesmo assim, quando a morte nos visita, levando alguém que nos é querido, não conseguimos segurar a dor que nos arrebata.

Religiões têm o papel de nos trazer conforto e esperança. Mostrar que a consciência da morte, característica humana, é justamente o que nos qualifica como imortais de espírito. Assim, não desaparecemos, simplesmente mudamos de essência e nos aproximamos de Deus.

Emoções e Lógica

Meu personagem favorito da série Jornada nas Estrela sempre foi o Sr. Spock. Sua capacidade em bloquear as emoções e simplesmente olhar tudo pelo lado da lógica me facinavam. Sentir emoções nos levam ao sofrimento. Também são responsáveis pelos momentos de alegria, mas será que este preço vale a pena?

Em vários momentos de minha vida consegui isolar minhas emoções através de um método simples: colocar-me acima do fato. Olhar como um observador e não como participante. Como se nada daquilo fosse comigo. Eu não era um personagem, apenas um observador privilegiado.

Este não envolvimento tinha a vantagem de bloquear o sentimento de dor, de sofrimento que ocorre quando perdemos alguém próximo. Consegui isolar-me no falecimento de três tios próximos em um período menor que um ano.

Não tive sucesso quando o acontecimento foi o falecimento de meu pai. Neste caso, por mais que tentasse me afastar, ouvir e ver o que estava ocorrendo como observador, desde sua internação até a cirurgia da qual não conseguiria sair, o afastamento era apenas momentâneo. Logo eu retornava ao vivenciamento dos fatos.

Nunca fui muito bom em guardar diálogos. Não tenho a capacidade de um Trumam Capote que se dizia capaz de recordar de 94% do que era dito. No entanto, guardo com alto nível de detalhes o telefonema de meu cunhado, médico clínico, cardiologista famoso, informando-me que meu pai havia sofrido uma parada quando estava para ser transferido da sala de cirurgia para a UTI e que o cirurgião resolvera operá-lo novamente.

As conversas que se seguiram também me marcaram até a última, quando ele me disse que não havia mais esperanças. Não consegui chorar. Homens não choram. A lógica deve sobrepor-se às emoções que nos trazem sofrimento e dor. Olhei do lado e vi minha esposa chorando. À minha frente meu cunhado. E eu ali, personagem do drama e não observador como gostaria de ser mais que tudo naquele momento. Meu pai estava morto.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2006

A Morte do Pai

Para Freud, a morte do pai é o "evento mais importante, a perda mais decisiva na vida de um homem". (Citado por Sérgio Telles). É como se de repente o norte sumisse. O vazio. Sozinho dentro da esfera em busca de uma direção. Ao redor apenas o nada.
A figura paterna é muito forte para o homem. Sua presença nos serve de exemplo a ser seguido. Sua ausência física nos deixa como que vulneráveis. É como se, apesar de sabermos nadar, de repente nos víssemos sozinhos no meio do oceano, sem nosso treinador. Seus ensinamentos estão incrustrados em nossa mente, sabemos exatamente o que devemos fazer, mas a sensação de estarmos por nossa conta nos arrebata.
Crescemos, olhamos o mundo com outros olhos. Aquele que nos servia de modelo e era sempre motivo de admiração a a quem queríamos sempre agradar não está mais lá. É um farol no meio do nevoeiro. Enchergamos a luz, mas não a construção. E esta luz nos impede de chocarmos com as pedras, nos garantindo uma chegada tranqüila.